Essa resenha/crítica não foi feita pelo autor do blog.
O post de hoje é coisa séria e, pela primeira vez, será escrito por um homem. É claro que você deve estar se perguntando “Ué, mas quem será essa pessoa linda e inteligente que escreveu esta resenha?” e, por isso, após muito pensar, decidi não revelar minha verdadeira identidade (até porque estaria correndo um sério risco de assédio sexual, digo, de vida).
Adotarei então um nome fictício e escolhido longe de qualquer critério objetivo. Podem me chamar de Yrch.
Yrch (nome fictício)
A obra escolhida para hoje é 1984. Um livro de Laurentino Gomes que retrata como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco ajudaram a criar o Brasil. Mentira (glu glu).
“1984” (Nineteen Eighty-four) é um livro escrito por Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo seu nome artístico: George Orwell. Publicado pouco antes da morte de seu autor (em 1949), foi o livro mais vendido do séc. XX e, ao lado de "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley (Aldous - quem diria! – foi professor de Orwell na faculdade), desponta como o maior ícone da literatura distópica (que explora um mundo utópico onde o governo tem poder total sobre a vida das pessoas).
Conhecido pelo vasto legado, 1984 não só continua influenciando toda uma vasta área da pesquisa acadêmica, como emprestando referências a vários artigos culturais. Foi de 1984 que se cunhou o programa “Big Brother”. Assim como foi em 1984 que Alan Moore (“V de Vingança”) encontrou grande inspiração.
George Orwell
O “Mais que um leitor” já abordou outro livro de George Orwell, mas – com todo respeito – 1984, é hands down, a obra-prima deste escritor. E agora você vai entender um pouquinho do por que.
Ambientação.
“...E embora, evidentemente, tudo piorasse à medida que o corpo envelhecia, não seria um sinal de que tudo aquilo não era a ordem natural das coisas o fato de que o coração da pessoa ficava apertado com o desconforto e a sujeira e a escassez, com os invernos intermináveis, com as meias grudentas, com os elevadores que nunca funcionavam, a água fria, o sabão áspero, os cigarros que se quebravam, a comida com seus estranhos gostos ruins? Por que razão o indivíduo acharia aquilo intolerável se não tivesse algum tipo de memória ancestral de que um dia as coisas haviam sido diferentes?”
Winston Smith vive em uma cidade fria, e não somente no sentido de clima, mas em cores e formas. Todas as construções são parecidas e possuem o mesmo tamanho, apenas se destacam no horizonte os prédios dos três ministérios, como se seus cumes fossem morder o céu.
Nas ruas, poucos se atrevem a mostrar qualquer simpatia. As paredes de tinta descascada e tom apático somente brigaam com as cores de cartazes com a figura de um rosto imponente: O GRANDE IRMÃO (Big Brother, há!). Por onde quer que você passe ele está lhe observando – o próprio cartaz é feito de maneira que pareça com que os olhos do Grande Irmão estão te seguindo -, mas não se iluda, eles realmente estão, e se chamam TELETELAS.
As teletelas são dispositivos eletrônicos que filmam e gravam até o menor ruído, estão por todas as partes e nunca são desligadas. Nas casas e quartos, nos bares, locais de trabalho, tudo que acontece passa pelos olhos do Partido, e, por conseqüência, pelos olhos do Grande Irmão (alguém que nunca fora visto, mas todos acreditam veementemente em sua existência).
O país (Londres, ou o que sobrou dela) está sempre em guerra. Além dos cartazes todos repetem o lema do Partido, que se encontra gravado no topo dos ministérios:
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA
O problema é que nunca se sabe contra quem se está em guerra. O Partido, através do Ministério da Verdade (local de trabalho de Winston) altera toda hora todos os jornais, livros, tudo. Aliás, os livros “eram simplesmente um produto que precisava ser fabricado, como geléias ou cadarços”.
E assim, qualquer verdade que é verdade hoje, foi verdade sempre. E compete a Winston passar as tardes retificando a escrita desses registros, apagando do mundo o registro de seus amigos (o próprio fato de que eles um dia viveram), mas isso somente ele sabia.
Ora, “Você se dá conta de que o passado, a partir de ontem, foi abolido? Se sobrevive em algum lugar, é em um ou outro objeto sólido, sem palavras associadas [...] Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todos os livros foram reescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas, todas as ruas, todos os edifícios renomeados, todas as datas foram alteradas. E o processo continua dia a dia, minuto a minuto. A história se interrompeu. Nada existe além de um presente interminável no qual o Partido tem sempre a razão.”
Irrevogavelmente, Winston vivia em constante dúvida, a toda hora questionando se estava louco (por acreditar em coisas que seus olhos viam, mas os textos apagavam), se sentia logrado, enganado, se sentia menos vivo, e quem não se sentiria? Como diria Bukowski: porque alguém sentiria prazer em acordar às seis e meia da manhã com o som de um despertador, cagar, mijar, ir trabalhar com sono, e ainda ter que agradecer pela oportunidade que está lhe sendo dada?
Talvez o que pudesse salvar seria o amor. Talvez isso colorisse algo, emprestasse sentido à alguma coisa. Certo? Errado. É que o Partido proibia o amor. O Partido proibia qualquer sentimento, com exceção do ódio.
O ódio, aliás, é exercitado constantemente. Todos param de trabalhar de tempo em tempo para (praticar ginástica laboral) os Dois Minutos de Ódio. Quando as teletelas transmitem o rosto de Goldstein, o inimigo, e todos xingavam ele, histericamente, jogando cadeiras, quebrando o que estava por perto, liberando um pouco da raiva que o Partido fazia questão que cuidassem com o mesmo afeto que se cuida de um poodle fofinho.
Você consegue se imaginar vivendo assim?
Não bastasse o café ruim, o cigarro que o fumo caia no chão, a vodka com gosto de graxa, o fato de não poder amar, estar sob constante vigília do Partido e ver seus amigos sumirem e serem depois acusados de traição...
O que mais poderia acontecer...
E a resposta é pensamento-crime. Isso mesmo, pensar era um crime para o partido. Você não podia conversar, mostrar o que gostava, suas opiniões deveriam ser guardadas, e com treino o bastante e a quantidade suficiente de amor pelo Grande Irmão, você não pensaria em mais nada, alcançaria a paz.
Outra forma de vigilância que o Partido possui é a reforma da língua. Imaginem o pesadelo do Novo Acordo Ortográfico (entre Brasil e Portugal) só que desta vez para diminuir as palavras. Isso mesmo. O Partido queria diminuir as palavras para que elas tivessem menos significados e, assim, fortalecer o combate ao crime-pensamento.
E lembre-se que até seus sussurros eram gravados pela teletela. O que fazer então? É aí que começa a aventura de Winston, no momento em que decide escrever um diário e contar sua história, para quem... nem ele sabia. Quem sabe para você, não é? (:
Minha experiência.
O que me causou maior surpresa em 1984, apesar da forte ambientação e construção de um cenário frio e apático, bem como da proposta de explorar quantos vincos a bota calçada pelo governo totalitário deixa na cara do oprimido, é que a obra é um grande romance. Isso mesmo. No meio do concreto criado pelo cenário de opressão do Partido, surge, como aquela plantinha da propaganda do Greenpeace, o amor de Winston e Julia.
O amor é um grande capítulo no livro orwelliano, já até pensar em amor era crime(pensamento-crime), amar era um protesto contra o governo, uma revolução e, acima de qualquer coisa, uma forma de suicídio. Amar era ter consciência de que o fim estava próximo, ou como Winston diria: era saber que "o fim estava contido no princípio".
Se Winston conseguirá vencer o Partido ou mesmo ficar ao lado de Julia, não vou contar. Mas garanto que o desfecho desse amor é inefável (aquilo que não se pode explicar com palavras).
Ao lado do amor, existe no livro um grande compêndio de como um poder totalitário atua. E nessa parte o livro está ainda mais atual. O que mostra, pra nossa tristeza, que os meios que somos explorados continuam sendo os mesmos. A necessidade da guerra para justificar o medo que legitima o Estado Autoritário; a pouca informação; falta de transparência; nos mostram que o Estado nunca precisou que fossemos cegos, apenas que apagassem a luz.
1984 é um livro para ser lido com raiva, com medo. Se revolte. Lê-lo será uma das experiências mais enriquecedoras que você vai ter com um livro, eu garanto. Viva cada parte se colocando no lugar de Winston, e, tente, imagine, tolerar o que ele teve que tolerar.
E no fim, tente achar algum conforto.
Citações.
“Winston tinha a sensação de estar vagando pelas florestas do fundo do mar, perdido num mundo monstruoso em que o monstro era ele próprio. Estava sozinho. O passado estava morto, e o futuro era inimaginável.”
“O passado, refletiu ele, não fora simplesmente alterado; na verdade fora destruído. Pois como fazer para verificar o mais óbvio dos fatos, quando o único registro de sua veracidade estava em sua memória?”
“Não deixava de ser curioso, pensou Winston, que fosse possível criar homens mortos, mas não homens vivos.”
“O tempo todo, no estômago, na pele, havia uma espécie de protesto, uma sensação de logro: a sensação de que você havia sido despojado de alguma coisa que tinha o direito de possuir.”
“Se você obedecesse às regras desimportantes, poderia desobedecer às importantes.”
“Quando você faz amor, está consumindo energia; depois se sente feliz e não dá a mínima pra coisa nenhuma. E eles não toleram que você se sinta assim [...] Se você está feliz na própria pele, por que se excitar com esse negócio de Grande Irmão, Planos Trienais, Dois Minutos de Ódio e todo o resto da besteirada?”
“Nesse jogo que estamos jogando, não temos como vencer. Alguns tipos de fracasso são melhores do que os outros. Só isso.”
“Ele – ou o ar em volta dele – parecia ter-se impregnado do cheiro do cabelo de Julia, do gosto de sua boca, da maciez de sua pele. Ela se tornara uma necessidade física: algo que ele não apenas desejava, mas a que sentia ter direito.”
“O Partido era invencível. Ele sempre existira, sempre seria o mesmo. A única forma de rebelar-se contra ele era mediante a desobediência secreta.”
“O fim estava contido no princípio. Era como estar pouco menos vivo. Tinha a sensação de estar pisando na terra úmida de um túmulo, e o fato de sempre ter sabido que o túmulo estava ali à sua espera não melhorava muito as coisas.”
“Não há a menor possibilidade de que ocorram mudanças perceptíveis em nossa geração. Nós somos os mortos. Nossa única vida genuína repousa no futuro. Participamos dela na condição de pó e fragmentos ósseos.”
“O objetivo de travar uma guerra é sempre estar em melhor posição para travar outra guerra.”
“O mundo atual é um lugar desolado, destruído, faminto se comparado ao mundo que existia antes, e ainda mais se comparado ao futuro imaginário para o qual as pessoas daquela época pensavam que estavam caminhando.”
“O passado é tudo aquilo a respeito do que há coincidência entre registro e memórias.”
“Em nossa sociedade aqueles que estão mais informados sobre o que ocorre são também os que mais longe estão de ver o mundo como ele é. Em geral, quando maior a sua compreensão, maior o engodo; quanto maior a inteligência, menor a saúde mental.”
“Onde há igualdade pode haver sanidade mental.”
“Diante da dor não há heróis.”
“Talvez fosse mais importante ser compreendido que amado.”
p.s. obrigado Cristóvão pelo espaço e espero que todos tenham gostado. Deixem seus comentários. Abraços, André.





