A história de um romance proibido já não era novidade na época do lançamento de O Morro dos Ventos Uivantes (1847), afinal Shakespeare já havia escrito Romeu e Julieta centenas de anos antes. Mas a atmosfera sombria do livro, os personagens violentos e dramáticos e o ambiente desolador, tudo isso unido à uma autora reclusa e problemática que vem a falecer no ano seguinte ao lançamento de sua obra, torna a leitura desse volume, no mínimo, interessante.
Gosto de falar aqui sobre o porquê de escolher alguns livros pra ler, como se pode conferir no post de O Apanhador no Campo de Centeio. Faço isso pois, apesar da máxima de que um livro não deve ser julgado pela capa, a gente sempre é atraído, pelo menos, pelos que são mais comentados. O Morro dos Ventos Uivantes é considerado um clássico da literatura mundial, mas eu também já comentei aqui que a palavra clássico, se tratando de literatura, não me atrai. Tem que ter algo a mais. E no caso desse livro, o que me levou a alugá-lo na biblioteca da universidade foram, novamente, as histórias em torno dele, que qualquer um tem acesso com muita facilidade em simples pesquisas da internet.
Wuthering Heights foi fortemente criticado na época de seu lançamento. Chegaram a dizer: "a história se passa no inferno... somente os nomes dos personagens são ingleses.". O livro correu o risco de nem ao menos ser publicado. Emily Brontë, irmã de duas escritoras, foi considerada à época a menos criativa das três. Baniram os livros de diversas bibliotecas na Inglaterra. Os motivos? Pequenos, mas devemos considerar que a época era de muita ignorância no pensamento popular: Personagens obscuros, um desregro pelas questões religiosas, atmosfera tensa e violenta, sem contar mortífera.
Além do conteúdo do livro, a história da autora (que abordou muitos anseios da sua vida para escrever a obra) também chama a atenção. Precisou conviver com mortes precoces de membros da família, com a bebedeira do irmão mais velho, com os fracassos em tentativas de convívio social e outras experiências que, muito provavelmente, a inspiraram para a criação das personalidades profundas, agressivas, temperamentais das personagens de O Morro dos Ventos Uivantes. Acabou falecendo no ano seguinte ao lançamento de sua mais famosa obra por uma crise de tuberculose.
Vamos à um resumo da obra:
Heathcliff e Catherine. De todos os casais que já conheci através dos livros, de longe esse é o que se amou com mais intensidade, e esse amor é de longe o mais destrutivo dos que já li a respeito. A história é toda contada através de um inquilino de Heathcliff, Sr. Lockwood, que decide alugar deste homem uma terra chamada Thurston Grange, situado no alto de alguns morros da Inglaterra, longe das turbulências da cidade grande. Heathcliff mora em Wuthering Heights, um casarão isolado, um pouco acima de Thurnston Grange. Nessas terras, os ventos fortes e os temporais são constantes e causadores de muitos problemas, principalmente de locomoção. Ao conhecer o seu senhorio, Lockwood se interessa em saber da sua história, pois nunca antes havia conhecido um sujeito tão grosseiro, violento em seus atos e de mal com a vida, e portanto pergunta à serviçal que lhe é disponível, Ellen Dean, se podes lhe contar sobre o passado de Heathcliff. Por sorte, Ellen conhece toda a vida do homem, e aí a história passa a ser a narração dos relatos de Ellen ao Sr. Lockwood.
Heathcliff era um menino cigano abandonado nas ruas da Inglaterra à pedir esmolas, até que o antigo dono de Wuthering Heights, sr. Earnshaw, resolve levá-lo para casa, para ficar aos seus cuidados. Sr. Earnshaw, ao voltar para Wuthering Heights, apresenta o menino cigano, que dá o nome de Heathcliff (funciona como nome e sobrenome), aos seus filhos naturais, Hindley e Catherine. Heathcliff sofre preconceito dos novos irmãos pela cor da pele, principalmente por Hindley, que o considera apenas um aspirante a usurpador dos bens de seu pai.
Hindley aplica surras constantes ao irmão adotivo, e Catherine, depois de um tempo, amolece o seu coração por esse tratamento subumano que o pequeno cigano tem na casa, e começa a ser mais condescendente com suas condições. Poucos anos depois, sr. Earnshaw morre, e Wuthering Heights passa a pertencer ao filho mais velho, Hindley. Assim que atingem a juventude, Catherine e Heathcliff vivem uma ardente paixão, que Hindley desaprova. Por causa disso, o novo dono do casarão torna Heathcliff um criado, obrigado à trabalhar para poder sobreviver, e proibido cada vez mais de ver Catherine.
Essa, por sua vez, conhece Edgar Linton, jovem bem apessoado e rico e, enquanto Heathcliff se afunda em melancolia pelos seus serviços no casarão que o consumem cada dia mais, Catherine faz planos de se casar com Edgar. Heathcliff, ao descobrir isso, desaparece por um bom tempo do morro dos ventos uivantes...
A partir daqui, não vou dizer mais nada, pra não estragar a leitura... Ou melhor, quase nada.
Heathcliff, à medida que suas experiências de tortura e censura vão lhe consumindo, torna-se uma pessoa de péssima convivência. Recluso, vingativo, ganancioso, destrutivo. Já Catherine sofre, com os anos, a consequência de ter feito uma escolha errada, e virado às costas aos seus verdadeiros sentimentos, e isso vai aos poucos destruindo e corroendo seus pensamentos.
Uma das maiores qualidades que eu encontro nessa obra é justamente a construção do temperamento dos personagens após as suas experiências e escolhas. Não existe um personagem bom ou mal, existe um personagem que age de acordo com a vida que levou - e não é assim na vida real também?
Talvez isso tenha agredido tanto às normas, os valores morais da época. Você não pode culpar Heathcliff de se tornar um verdadeiro demônio com o passar das páginas se ele sofria preconceito na infância, foi traído pelo único e grande amor da sua vida e obrigado a trabalhar pesado por um tirano - que só o era graças as bebedeiras, que o faziam esquecer do falecido amor da sua vida. Também não podes ter raiva de Catherine por se casar com Edgar, se ela paga por essa escolha com uma vida amargurada e miserável. E quando uma sociedade acostumada à atribuir culpas de erros à pessoas más se depara com uma história em que existem apenas personagens reféns de suas escolhas e experiências, obriga-se a culpar é a autora por pensar em um absurdo desses.
A verdade é que O Morro dos Ventos Uivantes cativa pelo clima de tensão que se instala em praticamente toda a obra. Planos de vingança, tomada de posses à força, mortes e mais mortes e, principalmente, a perda da sanidade por tanto sofrimento me faz abrir uma exceção no blog: Não tenho pontos negativos para agregar à essa obra. Alguns diriam que a escrita é antiga e morosa, acaba deixando a história maçante e passível de ser abandonada logo nas primeiras páginas, e eu atribuo à isso um pecado capital: Preguiça. Mas é claro que essa é a opinião do blogueiro, aceito todas as críticas de vocês, colegas leitores, que tiverem argumentos contrários aos meus!
Vale ressaltar também o valor histórico da obra, já que nos faz compreender os valores e o modo de vida do século XIX. Os serviçais nascem, crescem, envelhecem e morrem servindo. As pessoas adoecem o tempo todo, e isso é até de certa forma banalizado no livro. A impressão que dá é de que as doenças eram muito corriqueiras na época, e se pararmos pra pensar na tecnologia e na higiene da época, é fácil acreditar.
Frases marcantes de O Morro dos Ventos Uivantes:
"O mundo inteiro é uma terrível testemunha de que um dia ela realmente existiu, e eu a perdi para sempre.." -
Heathcliff
Heathcliff
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"Os meus grandes desgostos neste mundo, foram os desgostos de Heathcliff, e eu acompanhei e senti cada um deles desde o início; é ele que me mantém viva." - Catherine
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"O senhor é muito infeliz, não é? Solitário como o demônio e, como ele, invejoso. Ninguém gosta do senhor, ninguém o chorará quando morrer!" - Catherine Linton.
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Por fim, a música mais conhecida da cantora Kate Bush tem o nome da obra e é na verdade uma homenagem ao livro Morro dos Ventos Uivantes. Sucesso nos anos 70 (e com um clipe bizarríssimo!). Até semana que vem, amigos leitores!










